A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que valiam esses brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a alegria. A saude não se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da saude não existem as alegrias domesticas, os risos da existencia.

El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe não permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava faser-lhe. Em compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe dirigia á cabeceira do leito e a todas as horas mandava perguntar por suas damas se o principe melhorava.

Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova liberalmente cheia de amigos e aduladores. Como[{148}] se não julgava de gravidade a molestia, facilitava-se a honra da entrada a todas as pessoas do tracto e das relações do paço.

Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da manhan. Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão esperando que estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de damas e criados. As damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona Catharina de Athayde e Dona Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os de maior nota, são Dom Manoel de Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João Lopes Leitão, Jorge Souto Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.

Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos parece faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto de hora de monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e pletorico, de barbas louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado, os olhos vivos e as faces pallidas. A boca mostra-a de exiguas dimensões, mas, segundo a fama que em Lisboa corria, no comprimento[{149}] da lingua ninguem se lhe avantajava.

Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos de alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com sua pluma branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno preto. Calção e gibão foram talhados de veludo verde. As meias eram de fina seda cor de carne.

—Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da Castalidum turba!

A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra e apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da Diana.

Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações de amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do principe. Depressa porém reapparece na ante-camara.

—Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso prasenteiro.