Um tem dois olhos e com vista clara,
Outro um só tem e esse co'a vista estreita.
Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara
A qual de nós tem vista mais perfeita?»
Quem houvera que a si não se enganara
Como o outro que enganado a aposta aceita?
Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti,
Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!»
—Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu que os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que todos elles porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o primeiro, o ultimo, o maior portuguez do seculo deseseis.
—Deveras excellente! Excedeis Horacio e[{153}] Marcial, meu illustre e grandioso vate! com estudado sorriso e com excesso de lisonjaria acrescentou ainda Jorge de Souto Mayor.
A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:
—Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por esta occasião acorrer as damas ao quarto do principe.
Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da enfermidade, mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.
—Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura aconchegando-se do leito.
—Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...
—Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser nada, querendo Deus.
—Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto nem o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude![{154}]