—São effeitos da doença, respondeu pausadamente.
—Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que estou doente... Sabes que doença padeço?
—Sei, meu principe.
—Que doença é?
—Francisco Lopes que vos responda, senhor.
—Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.
—Receio declarar-vos a verdade.
—Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...
—Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á adulação e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas organisaçoes anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas podesseis comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais tranquilla a vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então saberieis ler no livro mysterioso do destino os deveres[{157}] que vos determina a Providencia. Serieis então os amigos e os protectores do povo...
O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem; mas, como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não ousava interrompel-a.