Com mais valentia de voz o badage proseguiu:

—Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo! Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao turbilhão vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos interesses publicos e em prejuiso da ventura das nações. Não é grande o numero dos monarchas, por mais ricos e poderosos que sejam, que morrem com a consciencia de haverem feito a felicidade dos seus vassallos. Parece que teem os olhos vendados para o bem...

—Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho feito eu para seres assim tam rigoroso de palavras?

—Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois sabei que pelas culpas[{158}] dos paes respondem os filhos até á quinta geração...

—Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que peccados accusas meu pai?

—Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos desacertos e que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e só por interesse do tribunal da inquisição? Bastará o Santo Officio para causar maiores damnos do que a peste e mais opprobrio do que a forca. Nas mãos dos seus ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é o mesmo que o estilete do assassino. Confisca-se a propriedade, assassina-se o fidalgo, rouba-se com a riquesa a honra alheia e queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba para que se accenda mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda com mais uma columna o templo da igreja!

—Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um principe de sangue.

—Principes e monarchas não os respeito nem[{159}] acato senão pelo esplendor das suas virtudes. Onde está o rol das vossas virtudes? Foi benefica a missão de que vos encarregou o Deus que sempre tendes á flor dos labios e a que nunca ergueu altares o vosso coração. Deus mandou-vos amar o proximo. Devieis ser o auxilio e não o latego do povo. Mas vós, que tendes para tudo ministros e conselheiros, só os não tendes para vos aconselharem a minorar os infortunios do pobre e obrigarem a repartir com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas dos lautos e magnificos banquetes...

—Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda te posso punir e esmagar, villão!

—Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que sempre a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos, cortesãos que se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas das coroas regias para encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra do seu espirito. Sei que todos os vossos caprichos e devaneios, embora custem milhares de crusados, serão satisfeitos[{160}] mais depressa, do que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa! Em vez de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa coroa. Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem o vosso corpo o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso corpo aos vermes e á podridão do sepulchro!