[[3]] Frei Luiz de Sousa. Annaes, liv. I, cap. IV.

[[4]] Frei Luiz de Sousa. Annaes, liv. III, cap. 11.

[[5]] La Clede. Hist. ger. de Portug.

[{23}]

II

OS REIS NÃO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS

Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos tudescos e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paços da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria e, em tom de quem dá conselhos, ousa segredar-lhe assim:

—Tomae cuidado. Os reis não costumam perdoar as offensas que recebem.

Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz não prestara ouvidos. Embuçando-se cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando sobre os olhos o seu amplo chapeu[{24}] de feltro enfeitado com bella pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous momentos se apresenta no meio do espaçoso terreiro.

O Tejo, esse rio de arêas de ouro tam decantado pelos poetas, dormia placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas de longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada monotonia da noite.