O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da Palha a direcção da praça do Rocio.
Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe surdem inesperadamente de cara tres vultos agigantados.
Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu corpo ficaria sem forças e sem vida se os punhaes não resvalassem no aço finissimo de uma cota de malhas.
—Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo[{25}] tempo que desembainhava a espada e que se poz em guarda.
Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.
Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja. Mas os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Além d'isso ajuntavam-se tres contra um. Não podia ser mais melindrosa a posição do infante.
Por fortuna, quando já o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na peleja.
Depressa cáe por terra o mais alentado dos aggressores e os dous restantes, naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e vergonhosa retirada.
—Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.
Era elle o mesmo pagem que nos paços da Ribeira lhe segredara misteriosamente: Cautela, que os reis não perdoam as offensas que recebem![{26}]