—Não comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de Beja.
—É o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.
—O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita. Dize-me: que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem entendimento nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa cabeça desvairada que nunca soube comprehender as doçuras da paz nem respeitar as glorias de Deus?
—O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito, é um instrumento de trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua existencia no roçar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos perigos e labores das officinas, sobrecarregado sempre de[{168}] gabellas e desfavores, ganhando apenas os meios pecuniarios de não morrer de fome e não conseguindo nunca abandonar a sua condição servil. É o contrario de essa classe que se chama a nobresa e de essa oligarchia que se chama o clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma legislação de isenções e privilegios, são homens livres que deixam de contribuir para as despesas do estado, que tudo á larga possuem e que desconhecem os suores do trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, todavia, constitue a maxima parte, a grande porção do estado. Do seu braço, das suas forças e da sua actividade provém a riquesa publica, a defesa das monarchias ou das republicas, a manutenção da ordem e da paz, o desenvolvimento do commercio e das industrias. O povo é o elemento mais forte das instituições politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina social. Seria preciso conseguintemente não despojal-o da sua personalidade e da sua liberdade... Mas quando irromperá a fulgorosa alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos desperte ao grito heroico e triunfal de um novo Spartaco,[{169}] o libertador dos povos? Quando, proclamado o advento da igualdade e da justiça, surgirá a epocha redemptora em que a essa cohorte renegada de hebreus se concedam pelas prescripções de uma legislação benefica e humana os foros de cidadãos e os direitos de homens livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu erguerei sempre a minha voz contra os excessos da tyrannia feudal, inquisitorial ou real que fasem do povo uma besta de carga. O systema pagão ainda prevalece nas hodiernas sociedades, apesar de já decorrerem mais de quinze seculos de christianismo[[18]]: isto é do reinado da igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se não ha de abolir este nefando systema aperfeiçoando as coisas existentes, dando ás ideias diversa direcção, melhorando as leis e os habitos e os costumes? Vós, provincial Simão Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao jugo da escravidão e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos carceres, conseguis a regeneração da sociedade civil e a grandesa da igreja catholica. Mas por[{170}] acaso ignoraes que a consciencia publica e o senso universal reprovam com vehemencia as traças e ardis empregados pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que directamente conduz á anniquilação e ao opprobrio? As nações não podem viver sem leis de egualdade na distribuição dos bens e dos males, dos cargos e beneficios. Não podem os homens coexistir e prosperar sem as vantagens de uma associação commum. Como é pois que a vossa corporação de jesuitas ambiciona dispor de todas as forças e riquesas, de todos os elementos de soberania e de todos os graus de despotismo? Não comprehendeis o grande pensamento do dever—que é a lei da vida, a grandiosa ideia do bem—que é o dever da humanidade! Conheço que debalde cairei sem nome nem gloria como o soldado ferido no fragor dos combates. Mas eu vos profetiso, Simão Rodrigues, eu vos profetiso que ainda um dia, ao grito de triunfo dos meus irmãos, ha de sobre as cinzas frias do jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos de alegria o altar da liberdade![{171}]
Logo Simão Rodrigues se dispunha a esfriar a impressão do democratico discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de firmesa e coragem, apressou-se a diser para seu esposo:
—Não approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo? Por Deus vos declaro que não conheço em nossos reinos mais generoso fidalgo nem mais leal vassallo!
—Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha gratidão e a minha graça. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se affavelmente ao badage, em aceitar a commissão com que me apraz honrar-vos? Quero provar-vos com animo generoso que sei premiar as virtudes e serviços dos meus vassallos...
—Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simão Rodrigues, por Deus que vos não pertence premiar os herejes nem os criminosos!
—Jamais um monarcha de Portugal deixará de cumprir quanto prometteu... Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India[{172}] com os mesmos foros e jurisdicção o viso-rei Dom Affonso de Noronha.
Seguidamente fôra o badage abraçado com espontaneas manifestações de contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.