O PERDÃO

Com o espirito entregue aos dominios de uma vaga melancolia desceu seguidamente o badage ao primeiro andar dos Paços da Ribeira, onde, ao derredor de uma luxuosa banca pejada de papeis, meia dusia dos mais altos personagens se debatiam em calorosa conversação nos aposentos particulares de el-rei.

O badage, predispondo-se a colher o fio da conversação, cautelosamente applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.

—É mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um tremendo e exemplar[{166}] castigo. Aquelle herege não póde ser absolvido nem perdoado. Sabeis, senhor, até onde alcançam o grau dos seus crimes, o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados?

—Já me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu. Confesso que foi horrivel a vossa posição. Atrever-se aquelle herege a martyrisar-vos com o fogo! Presumo que não foram os vossos tormentos inferiores aos de San Lourenço, o martyr das grelhas.

—Pela minha parte lhe perdôo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo. Agora só me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os desacatos á religião catholica, as offensas dirigidas a Deus...

—Perdoae-lhe vós, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de misericordia.

—Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa generosamente pelo seu pagem. Cá de mim não tenho resentimentos nem gostei nunca de vindictas. Em boa fé, meu padre, vos declaro que tudo esqueço. Mas que diseis, Simão Rodrigues? De vós depende o perdão ou o castigo![{167}]

Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de improviso.

—Recuso, disse com firmesa, todo o perdão e todo o favor. Simão Rodrigues, Simão Rodrigues, sois vós que precisaes da graça de el-rei!