Requiescat in pace!

Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas, ou então por[{162}] que o quadro pavoroso da morte não é espectaculo que deleite as vistas e atraia a presença dos cortesãos.

O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não deviam de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo violento de um vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões dos braços pareciam fios de arame agitados por uma descarga electrica.

Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se como se lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas ainda nutria alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:

—Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...

O badage continuou a revelar-lhe:

—Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é verdade. Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa altesa[{163}] os effeitos do veneno e é el-rei, acredite-me vossa altesa, é el-rei Dom João III a causa da sua morte!

A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se com maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e despedaçar as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de um abutre. Porém a alcova nupcial tornara-se depressa a habitação lugubre da morte. Agora a voz e as forças abandonaram de vez o corpo franzino do principe. Era elle apenas um cadaver![{164}]

[{165}]

XV