Foi annunciado o almoço e então suas altesas as pessoas reaes, acompanhadas de suas senhorias os conselheiros e o celebre provincial, poseram logo termo á audiencia.

Apenas se conservou na sala o badage.

—Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem não gosta de elevar-se e engrandecer-se, quem não deseja passar de braço erguido por cima da cabeça dos outros, embora á custa da sua consciencia e da sua dignidade? Todavia do meu[{176}] procedimento não me arrependerei nunca. As Indias são emporio de riquesas e eu depressa possuiria armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa serenissima? O rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispõe dos haveres e dos suores do povo, a massa que produz e trabalha. De certo deveria a minha fortuna ás generosidades do rei... Mas não és tu—a maior, a grande porção da humanidade—que trabalhas e que produses e que tudo vaes pagando?... Povo, das bagas do teu suor é que nascem as perolas das coroas regias. Eu comprehendo isso, comprehendo! Havia pois de enriquecer-me á vossa custa, meus irmãos?

O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabeça sobre os braços crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos permaneceu como adormecido pelo cansaço. Entregava o seu espirito á meditação, porque logo alteou a sua cabeça esbelta e se dispoz lentamente a escrever.

Todos os mais intimos e sinceros sentimentos[{177}] do seu coração transmittia-os agora a meia folha de papel. Estava confiando por meio das letras alfabeticas de uma carta dirigida a Catharina de Austria os seus fervorosos affectos e as suas saudosas despedidas.

—Amei-a com dedicação! monologava elle quando acabou de escrever. Mais pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo... Conheci-a sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a impudicicia de uma rainha são vicios que jamais lhe empanaram o brilho das suas virtudes. Não me esquecerei nunca de abençoar o seu nome e de estremecer a sua imagem. Nobre e gentil senhora! quem soffreria os impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo sombrio e fanatico, se não fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de ovelha paciente e delicada?

Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a em varios pedaços a final.

—Não! reconsidera com altivez. Não darei eu esta prova de fraquesa. Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da[{178}] concha, apertarei nos meus seios de alma o segredo dos meus amores. Quem sabe se lhe causaria despreso em vez de saudade, riso em vez de compaixão?

O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.

Aquelle palacio escaldava-lhe a cabeça como se o abrasasse a cratera de um volcão.