Em ambos brilhou o patriotismo no mais alto grau. Em Camões exerceu uma impressão dolorosa o desastre de Alcacer-Kibir; Herculano soffreu profundamente com o progresso da nossa corrupção moral e com a nossa decadencia politica. Camões, numa carta que dirigiu a D. Francisco de Almeida quando Portugal estava proximo a perder a sua independencia, escreveu: «Em fim acabarei a vida, e verão todos que fui tão affeiçoado á minha patria que não me contentei de morrer nella mas com ella.» Herculano, pouco antes da sua morte, profundamente sensibilizado pela decadencia moral e politica{51} do seu pais, exclamou: «Isto dá vontade da gente morrer!»

Na vivacidade do dialogo, na virilidade do estylo e no ardente enthusiasmo que transmitte aos leitores, tambem se assemelha Herculano ao grande épico. É admiravel a energia com que o nosso mais eminente romancista historico pinta as almas dos seus heroes, fazendo resurgir o espirito religioso, patriotico e guerreiro de epochas remotissimas. No seu pequeno mas excellente romance O castello de Faria, que faz parte das Lendas e narrativas, encontra-se o seguinte trecho, cuja eloquencia simples, magestosa e robusta nos traz á memoria as passagens mais eloquentes dos Lusiadas:

«Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã; todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se num silencio profundo.

«—Moço alcaide, moço alcaide! bradou o arauto, teu pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galliza pelo muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo, de fóra do teu castello.

«Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e, chegando á barbacã, disse ao arauto:

«A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.

«O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel approximou-se da barbacã. Chegados ao pé della, o{52} velho guerreiro saiu d'entre os seus guardadores, e fallou com o filho:

«—Sabes tu, Conçalo Nunes, de quem é este castello, que, segundo o regimento de guerra, entreguei á tua guarda, quando sai em soccorro e ajuda do esforçado conde de Ceia?

«—É, respondeu Gonçalo Nunes, de nosso rei e senhor, D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem.

«—Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas delle?