Neste trecho energico e ao mesmo tempo graciosamente satyrico revela-se o espirito logico e intransigente de Herculano; não ha ninguem que seja capaz de provar que entre as idéas nelle expendidas e as crenças religiosas da sua mocidade existe o menor antagonismo. Herculano permaneceu fiel ao velho catholicismo; foi a igreja quem introduziu novidades na religião; foi ella quem deixou de observar a maxima da immutabilidade da fé, que Herculano considerava sacrosanta, e que durante muitos seculos foi seguida pela grande legião dos varões illustres da igreja, como S. Boaventura, S. Jeronymo e muitos outros; por consequencia foram os padres obedientes ao pontifice que se afastavam das doutrinas da igreja primitiva. O Espirito Santo illuminou o papa e este obrigou os fieis, sob pena de excommunhão, a acreditar em dogmas que d'antes não{47} existiam e sem os quaes se podia muito bem entrar no ceu. Os padres chamavam hereje a Herculano mas este, por sua vez, considerava heresias todas as novidades introduzidas na religião catholica. Pio nono era para elle um verdadeiro hereje, um inimigo acerrimo do christianismo puro, um instrumento da Companhia de Jesus.
O Chateaubriand português, o defensor mais eloquente que o christianismo teve em Portugal e cujo merito litterario é comparavel ao de S. Paulo e Santo Agostinho, foi tambem o adversario mais implacavel do jesuitismo e da reacção ultramontana. O sublime auctor da Harpa do crente e do Parocho d'aldeia recebeu do beaterio fanatico e d'aquelles hypocritas para quem a religião é apenas um instrumento de politica os epithetos de impio, de irreligioso, de anti-christão e até de atheu. É porque entre a religião de Herculano e a religião dos jesuitas ha uma differenca enorme e considerabilissima. O sentimento religioso de Herculano nascia de um coração puro, sincero e desinteressado; a religião era para elle um balsamo suave no meio das amarguras da existencia e a fonte mais caudal das boas acções. Pelo contrario, para o jesuita a religião é a arma mais poderosa de que se serve para corromper e dominar a sociedade. Herculano amava ardentemente o christianismo, não o christianismo impuro e falsificado dos jesuitas e dos neo-catholicos, não o christianismo de Santo Ignacio de Loyola e de S. Vicente de Paulo, mas o christianismo puro, o christianismo do Evangelho, essa religião sublime que se resume nos principios sacrosantos{48} da liberdade, egualdade e fraternidade, que, embora nunca se possam realizar em toda a sua plenitude, são as mais nobres e grandiosas aspirações do coração humano. Para Herculano o christianismo era o grande civilizador dos tempos mordernos.
Com effeito, o que é a egualdade perante a lei senão uma traducção da egualdade perante Deus, proclamada no Evangelho? Não são porventura os povos christãos que caminham na vanguarda do progresso e da civilização? O que têm produzido as outras religiões senão a tyrannia e o despotismo? Que culpa tem o christianismo de que os padres o tenham adulterado e falsificado? Ha porventura alguma comparação entre os padres da igreja primitiva, que prégavam a liberdade de consciencia e a tolerancia, e os modernos jesuitas e lazaristas, que, em vez de explicarem ao povo as maximas sublimes do Evangelho, fazem consistir a religião principalmente nos exercicios de devoção externa?
Poeta e philosopho ao mesmo tempo, Herculano era profundamente melancolico. Como Bernardin de Saint-Pierre e Rousseau, amava ardentemente a natureza. Como S. Jeronymo e S. Basilio, era apaixonado pela solidão campestre; comprazia-se em viver longe do bulicio dos homens. O amor do infinito, que abrasava o coração de Santo Agostinho, tambem incendiava o coração de Herculano.
Alexandre Herculano foi um dos principaes representantes da alma portugueza. A tristeza, que tem caracterizado o povo português em todos as epochas, tambem caracterizava a grande alma de Herculano.{49}
O celebre critico Villemain diz que o português era reflectido e melancolico antes da epocha em que todos os povos o deviam ser. Esta meditação melancolica, que nos distingue dos outros povos meridionaes e nos assemelha aos povos do norte, revelou-se muito cedo na nossa litteratura.
A profunda melancolia que se observa nas deliciosas paginas da Menina e moça de Bernardim Ribeiro e nos seus versos singelos e melodiosos, nas poesias sentimentaes de Christovão Falcão, de Camões e de Soares de Passos e na maravilhosa relação de naufragios intitulada Historia tragico-maritima, essa profunda melancolia tambem é vigorosamente expressa nas Poesias de Herculano e principalmente no seu magestoso, soberbo e sublime Monasticon.
Não é, porém, só na vigorosa expressão da melancolia que Herculano é um dos mais notaveis representantes da alma portuguesa; tambem o é na poderosa energia com que exprime todos os sentimentos nobres e elevados. O amor, a coragem, o patriotismo e a generosidade são affectos caracteristicos do povo português; Herculano exprimiu-os de um modo verdadeiramente assombroso.
Como Camões, foi simultaneamente poeta e soldado. O principe dos prosadores tem muitos pontos de contacto com o principe dos poetas. Camões combateu na Africa e na Asia em prol da patria; Herculano pelejou no cêrco do Porto a favor da liberdade. Camões esteve desterrado em Macau; Herculano viu-se obrigado a emigrar para se esquivar ás perseguições do governo{50} absoluto de D. Miguel. Camões, impellido pelo seu ardente patriotismo e pela immensidade do seu genio, escreveu os Lusiadas, narrando em bellos e magnificos versos os feitos mais brilhantes da nossa historia; Herculano, levado pelas suas tendencias especiaes para os estudos historicos e pelo seu grande amor da patria, escreveu num estylo magestoso como o de Barros, harmonioso como o de Fr. Luis de Sousa, vigoroso como o de Tacito, vernaculo como o de Vieira e singelo como o de Fernão Lopes, a Historia de Portugal, o mais grandioso de todos os seus monumentos, a obra mais eminentemente nacional que em Portugal se escreveu depois dos Lusiadas.
O sentimento de dignidade pessoal era egual em ambos os escriptores. Camões nunca lisonjeou os poderosos no meio das maiores privações; Herculano nunca fez o minimo sacrificio da propria consciencia, foi sempre amigo da verdade e da justiça.