Entre as opiniões religiosas que Herculano manifestou no seu eloquente opusculo ácerca da suppressão das{42} conferencias do Casino, escripto no anno de mil e oitocentos e setenta e um, isto é, seis annos antes da sua morte, e as que havia exposto nos primorosos artigos ácerca do christianismo, publicados no Panorama muitos annos antes do clero ignorante e reaccionario o ter insultado nos pulpitos por causa da suppressão do milagre de Ourique, não existe a minima contradicção, o que prova cabalmente que não ha rasão alguma para que se diga que foi o ataque do clero que levou Alexandre Herculano a ser adversario do neo-catholicismo, o que seria contrario ao elevadissimo caracter do grande escriptor, cujas convicções eram profundas e firmes e que punha sempre o amor da verdade acima de todas as vinganças, como o revelou na Tentativa historica da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal, obra que o sr. Theophilo Braga, no seu Curso de litteratura portuguesa, qualifica de capital e cuja exactidão scientifica é tão notavel que levou o eximio orador sagrado, o sr. Alves Mendes, a chamar no pulpito a Herculano o severo analysta da Historia da Inquisição. A grande imparcialidade com que Herculano escreveu esta obra monumental depois de ser ignobilmente injuriado por uma grande parte do clero, mostra-nos quão elevado era o seu caracter. Não se devem fazer affirmações em desabono de um morto illustre, cuja voz emmudeceu no tumulo, sem que se possa demonstrar cabalmente o que se affirma.
Herculano era a logica personificada. Depois de admittir um principio tirava d'elle as consequencias com o maximo rigor. Nos seus escriptos não é facil achar{43} contradições. Se por vezes modifica as suas opiniões, é o proprio auctor quem o confessa com toda a franqueza e sinceridade, o que é a prova mais evidente do seu altissimo caracter. O sr. Theophilo Braga pretende apresentar-nos Herculano como um espirito incoherente e voluvel, mas quem, depois da leitura da Historia do romantismo, ler as obras do mais eminente historiador que Portugal tem produzido, ficará á primeira vista profundamente convicto de que a sua firmeza de convicções foi tão rara e admiravel que poucos escriptores em todo o mundo o teem egualado neste ponto.
No anno de 1843, isto é, tres annos antes da publicação do primeiro volume da Historia de Portugal, escreveu Herculano no Panorama um excellente artigo ácerca do christianismo e da philosophia, onde mostra não só a grande discordancia que tem reinado entre os philosophos em materia de moral, mas tambem a constancia e immutabilidade das crenças religiosas; nelle se encontram os seguintes periodos:
«Desde a moral de Platão deduzida do amor da formosura divina: desde a moral de Epicuro, moral negativa, que põe o profundo desprezo da humanidade como pedra angular do proceder humano: desde as escolas da Grecia até o materialismo grosseiro dos encyclopedistas, que maximas, que regra de acções deixou de ter altares, deixou de ser condemnada? Nenhuma.
«Constancia, perpetuidade só teem os preceitos immutaveis das crenças religiosas.»
Estes periodos eloquentissimos provam claramente que, antes de ser aggredido pelo clero, já Herculano{44} admittia o principio da immutabilidade da fé; era em virtude d'este principio que elle, sem condemnar a philosophia e a consciencia, que tambem considerava fontes das boas acções, dava a preferencia á religião como instrumento de moralidade.
Na carta que Herculano escreveu ácerca da suppressão das conferencias do Casino encontra-se o seguinte trecho, que revela a sua grande e admiravel coherencia e onde censura o papa e os bispos catholicos não só pela profunda modificação que fizeram nas doutrinas da igreja primitiva mas tambem pela condemnação dos principios sacrosantos da liberdade:
«Desde a promulgação da Carta tem-se realisado gradualmente uma revolução na igreja catholica. Com assombro da gente illustrada e sincera, vimos transformar em dogma uma superstição dos seculos de trevas, rendoso mealheiro de franciscanos, tinctura de pelagianismo, aproveitada hoje para aviar receitas na botica de S. Ignacio, a immaculada conceição de Maria, dogma que forçadamente conduz ou á ruina do christianismo pela base, tornando inconcebivel a Redempção, ou á deificação da mulher, á mulher Deus, á mulher redemptora, recurso tremendo nas mãos do jesuitismo, que, lisongeando a paixão mais energica do sexo fragil, a vaidade, o converte em instrumento seu para dilacerar e corromper a familia, e pela familia a sociedade. Depois, ludibrio d'esses homens de trevas, vemos o papa, celebrando uma especie de concilio disperso, mandar perguntar pelas portas dos bispos que tal acham aquelle appendiculo á fé catholica. Os bispos, pela maior parte,{45} encolhem os hombros ou riem-se, dizem-lhe que está vistoso e vão jantar. Depois, os que falam em nome do pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil, o sacrificio do Golgotha para a redempção da humanidade, ou dando ao Christo um adjuncto na sua obra divina, divertem-se em negar no Syllabus os dogmas, um pouco mais verdadeiros, da civilização moderna, e tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que tolerado, nos dominios do opinativo, a dogma indisputavel, e sanctificado assim uma opinião peor que ridicula, convidam a sociedade temporal á guerra civil. É a Companhia de Jesus na sua manifestação mais caracteristica. Os principios da Carta, como de todas as constituições analogas, são condemnados, anathematisados, exterminados in petto.
«É a communa de Paris, perfigurada em Roma, a arrasar e queimar, em vez de edificios, todas as conquistas do progresso social, todas as verdades fundamentaes da philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se então o concilio parado. É que falta ao Syllabus a sancção divina. Dar-lh'a-ha a infallibilidade indossada pelo episcopado ou á sua ordem. Ajuntam-se não sei quantos bispos, muitos bispos; uns reaes, outros pintados: aggremiam-se; e o papa pergunta ao gremio, em vez de o perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam a encolher os hombros ou a rir-se, dizem-lhe que sim e vão ceiar. O papa infallivel, que não sabia se era fallivel, fica emfim, descançado, e os bispos ceiados, dormidos e desappressados do visum est Spiritui Sancto et nobis do concilio apostolico de Jerusalem,{46} transferido definitivamente para a Casa-professa, voltam a annunciar aos respectivos rebanhos essa nova correcção das erroneas doutrinas da primitiva igreja.
«Taes são os deploraveis e incriveis successos que temos presenciado. O jesuitismo converte o infeliz Pio IX num Liberio ou num Honorio, induzindo-o a subscrever heresias, e a grande maioria dos bispos, creando na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o arianismo dominava por toda a parte, e abandonando a maxima sacrosanta da immutabilidade da fé, tornam-se em arautos e pregoeiros dos desvarios de Roma. As novidades religiosas vêm perturbar as consciencias, e o marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo de vencida na igreja catholica.»