A questão da propriedade litteraria é uma d'essas questões altamente transcendentes em que ha grande divergencia de opiniões; Herculano tratou-a com muita profundeza e originalidade, revelando o seu espirito eminentemente philosophico, a sua vigorosa dialectica. Ha certamente mais de uma opinião ácerca das suas doutrinas, mas o que nenhum critico imparcial poderá{38} affirmar é que entre ellas e a venda do Diccionario de Ramalho á Academia existiu a minima contradicção.

Herculano foi de uma coherencia admiravel nas opiniões religiosas, philosophicas e politicas que manifestou em toda a sua vida. Só quem interpretrar mal as suas palavras poderá affirmar o contrario. O seu espirito, que amava ardentemente a luz, nunca deixou de progredir.

Diz o sr. Theophilo Braga que foi o ataque do clero por causa da suppressão do milagre de Ourique que fez com que Herculano de catholico ferrenho se tornasse um christão semi-deista; isto está de accordo com o que tenho ouvido dizer a alguns padres, relativamente aos escriptos em que Herculano condemna a proclamação dos novos dogmas da infallibilidade do papa e da immaculada Conceição de Maria. Tudo quanto dizem os adversarios de Herculano a este respeito é completamente falso: nem são capazes de apresentar prova alguma em favor de tal asserção.

O caracter de Herculano foi muito superior ao do padre Lamennais, que, tendo defendido com muita eloquencia, no seu «Ensaio» sobre a indifferença em materia religiosa e noutros escriptos, as doutrinas ultramontanas mais retrogadas, abraçou quasi de repente o racionalismo depois que lhe foram condemnadas algumas obras. Este padre, tão notavel pelo seu talento litterario e philosophico, não recebeu na infancia uma educação religiosa como Herculano; só aos vinte e dois annos é que fez a primeira communhão: póde haver por consequencia muitas duvidas ácerca da sua sinceridade.{39} Mas o espirito de Herculano não passou por transformações tão bruscas; em nenhuma epocha da sua vida se mostrou partidario do ultramontanismo; nunca defendeu a infallibilidade do papa; até nas suas poesias simultaneamente religiosas, philosophicas e liberaes, onde estão profundamente gravados os sentimentos e idéas da sua ardente mocidade, transluzem referencias aos padres hypocritas e fanaticos.

Na Harpa do crente, nessa magnifica colleccão de poesias em que se revela um grande poeta, um profundo metaphysico, um christão ardente e um patriota liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem parte do seu bello e magestoso hymno intitulado Deus e nos quaes certamente faz allusão áquelles padres que, pondo em pratica a mais ignobil hypocrisia e tendo em mira exercer sobre a plebe fanatica o seu dominio nefasto, procuravam aterrorizá-la com a pintura horrivel dos tormentos infernaes:

«Embora vis hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um impio! Recear-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
Da tua Providencia.»{40}

O Deus de Herculano não é terrivel como o d'aquelles inquisidores que fizeram derramar tantas lagrimas, que condemnaram á morte mais horrivel tantos milhares de innocentes e procuravam abafar com o sangue de tantos martyres a idéa que procurava expandir-se. O Deus de Herculano não é o Deus que os jesuitas pintam como um tyranno para satisfazerem a sua infrene e desordenada ambição, para dominarem a sociedade, para converterem o mundo num montão de cadaveres, sobre cujas ruinas se assentariam com um riso hypocrita, satanico e cruel. O Deus de Herculano é o Deus de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus que derrama os seus copiosos beneficios sobre os justos e os peccadores, é o Deus de Fénelon e de Lamartine, é o Deus das almas generosas e puras, como elle proprio o confessa no seu eloquente e philosophico poemeto A semana santa, escripto quando apenas tinha dezanove annos.

Ninguem em Portugal ainda defendeu com tanta eloquencia o espiritualismo christão como Herculano, mas é principalmente debaixo do aspecto pratico que elle o considera; pode-se até affirmar que Herculano foi um dos escriptores mais positivos que Portugal tem produzido em todos os seculos: é pelo lado pratico, é baseando-se em factos que elle encara especialmente todas as questões religiosas, philosophicas e politicas; por isso a convicção que produz no animo dos leitores é profundissima; sem se engolphar nas mais transcendentes abstracções metaphysicas, que muitas vezes são inuteis, nem cair nas syntheses abstrusas e nebulosas,{41} que falsificam o criterio, analysa os factos com tal clareza e severidade, que neste ponto ainda ninguem o excedeu nem egualou em Portugal; não se deixa arrastar pela imaginação como alguns positivistas; possue no mais alto grau uma qualidade bastante recommendavel: o bom senso.

Herculano pouca importancia ligou á discussão ácerca da parte dogmatica do christianismo; o que lhe attrahiu principalmente a attenção foi a moral christã. Sejam quaes forem as opiniões ácerca d'esta materia, o que é certo é que nenhum critico sensato póde contestar a Herculano a pureza das intenções. O grande escriptor prentendia fazer d'este povo um povo simultaneamente instruido e moralizado.

Se algumas vezes se refere aos dogmas do christianismo, foi ora para mostrar a conveniencia pratica da immutabilidade da fé, ora para combater o jesuitismo, que se ia alastrando em Portugal e cuja influencia chegou a ser tão poderosa em Roma que obrigou o papa Pio IX e a maioria dos bispos do mundo catholico a modificar profundamente o christianismo, a proclamar como dogmas o marianismo e o infallibilismo, que Herculano considerava duas heresias, a romper com as tradições apostolicas, a tornar o catholicismo muito differente do de S. Paulo e Santo Agostinho e a condemnar os principios sacrosantos da liberdade no concilio do Vaticano, nesse concilio que é a pagina mais negra e vergonhosa da historia ecclesiastica no seculo dezanove.