Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano mandou{31} construir uma capella em Valle de Lobos. Isso não admira porque, sendo Herculano toda a vida um grande poeta, como o revelam as suas obras tanto em verso como em prosa, devia comprazer-se em ter deante dos olhos objectos que lhe recordassem os bellos e saudosos tempos da sua infancia. Na casa onde Herculano nasceu e passou os seus primeiros annos havia uma ermida onde um frade arrabido costumava dizer missa os dias-santos. No Monge de Cister pinta-nos elle com as mais vivas côres a profunda saudade que lhe causava a lembrança dos dias-santos da sua infancia, do altar onde no sabbado á noite se punham jarras de flores, do frade que lhe contava lindas historias ao almoço. Os verdadeiros poetas, os grandes sentimentalistas amam sempre o passado. Os homens demasiadamente positivos não podem comprehender o sentimentalismo vehemente das grandes almas. Se a cruz era para Herculano o symbolo da liberdade, da fraternidade e do progresso, não é de admirar que elle a amasse entusiasticamente, como o revelou na sua eloquente e philosophica poesia A cruz mutilada, escripta na sua mocidade. O ter mandado Herculano construir uma capella em Valle de Lobos não é pois uma prova de que o seu espirito retrocedesse com a edade. Alem d'isso o grande escriptor não deixou de ser christão em epocha alguma da sua vida. Rousseau, a quem os padres chamam impio, nunca zombava da religião como Voltaire. É porque o auctor do Emilio era um sentimentalista ardente como Herculano. Littré, apesar de positivista, não queria perturbar sua mulher quando ella estava deante do oratorio{32} fazendo oração. Foi a instancias de sua esposa que Herculano mandou construir a capella de que já fiz menção. Ainda que elle não fosse catholico, haveria porventura neste procedimento alguma cousa digna de censura? O verdadeiro philosopho, o amigo da tolerancia e da liberdade conserva sempre no seu coração o mais profundo respeito pelas crenças alheias. A liberdade de consciencia é um dos principios mais sacrosantos, um dos direitos mais sagrados, não só na sociedade mas até no lar domestico, no sanctuario da familia. O chefe de familia não é um despota nem a mulher uma escrava. A religiosidade é uma tendencia natural da mulher, a crença é uma das condições da sua vida moral; se quizerem extinguir-lhe no coração o sentimento religioso, lançar-se-ha no caminho do jesuitismo, o que certamente será um grande mal para a familia e para a sociedade. A religião é um instrumento poderoso nas mãos do jesuita; quem conseguir arrancar-lhe esta arma prestará incontestavelmente um grande serviço ás gerações futuras. É por meio da propaganda verdadeiramente religiosa que se dão os golpes mais profundos na Companhia de Jesus. A religião nasce do coração e a philosophia da intelligencia. Se a mulher é mais dominada pelo sentimento do que pela idéa, como poderá ella comprehender systemas philosophicos que estejam em antagonismo com o seu estado psychologico, com as grandiosas aspirações do seu nobre coração? Embora todas as opiniões sinceras sejam para mim respeitaveis, eu entendo que, em vez de se aggredir o christianismo,{33} falsificadores, que são os jesuitas e todos os padres cujas doutrinas sejam identicas ás dos filhos de Loyola.
Herculano, com a sua crença religiosa, ficou profundamente impressionado pelos estragos que a Companhia de Jesus fazia no christianismo; por isso mostra-nos, em muitas das suas paginas immortaes, quão perigosa é para o futuro da nossa patria essa sociedade fundada no seculo dezaseis por Santo Ignacio de Loyola e cujas intrigas obrigaram a sair de Portugal os lentes mais distinctos da Universidade de Coimbra. Na prosa mais poetica e viril que nos apresenta a nossa litteratura, expoz e criticou os factos mais interessantes da historia do ultramontanismo; com a sua vista de aguia previu os progressos que o jesuitismo havia de fazer em nossos dias.
O sr. Theophilo Braga censura a Herculano o seu ardor em combater o jesuitismo e os novos dogmas introduzidos na religião catholica, dizendo que elle dispendeu as suas forças contra os moinhos de vento do marianismo, do infallibilismo e do syllabismo e que o jesuitismo se tornou para elle uma preoccupapão constante; mas, como o auctor da Historia do romantismo se tem occupado dos mesmos assumptos, é evidente que escreve contra si proprio, o que me causa verdadeiro pasmo. Alem d'isto a censura feita a Herculano recae sobre a propria imprensa republicana, que muito frequentemente narra e estigmatiza escandalos jesuiticos.
É o poder da igreja tão pequeno que se não devam combater com a maxima energia as suas doutrinas contrarias{34} ao bem social? Tem porventura o jesuitismo tão pouca força que se deva considerar um elemento desprezivel? Não tem a Companhia de Jesus progredido assombrosamente no nosso pais? Não estão os collegios jesuiticos repletos de alumnos? Leibnitz, um dos genios mais vastos e profundos não só da Allemanha mas de todo o mundo, disse muito sensatamente: «Dae-me a educação, que eu transformarei a Europa em menos de um seculo.» Alexandre Herculano, com o seu profundo criterio, conhecia a grande força da educação; por isso receava que o jesuitismo viesse causar a decadencia intellectual e moral da sua patria.
A moral perversa dos jesuitas foi no seculo dezasete posta a descoberto não por um impio, não por um atheu, mas por um dos mais eloquentes e profundos apologistas do christianismo, por um genio prodigioso que, depois de ter feito os mais assombrosos descobrimentos scientificos, depois de ter penetrado varios segredos da natureza, depois de ter resolvido os mais difficeis problemas da mathematica, levantou, em favor do christianismo, esse grandioso monumento philosophico intitulado Pensamentos, que, apesar de ter ficado incompleto, revela a profundeza do genio que o traçou; este grande homem, este escriptor religiosissimo, este moralista austero, que se chamava Blaise Pascal, foi quem mais poderosamente contribuiu para a queda dos jesuitas no seculo dezoito. As suas Provinciaes, escriptas num estylo comico e vigoroso, espalharam-se por toda a Europa e as maximas corruptas dos jesuitas foram ridicularizadas não só nas academias mas até nos{35} palacios dos reis. Como poderia Herculano, o enthusiasta ardente da moral pura e severa do Evangelho, deixar de combater energicamente as doutrinas anti-christãs da seita jesuitica?
Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano, depois de se mostrar partidario do casamento civil, veiu a casar-se catholicamente; o distincto professor acha este procedimento contradictorio com as opiniões de Herculano. Quando, ao ler a Historia do romantismo, encontrei esta asserção tão infundada, fiquei realmente estupefacto. O sr. Theophilo Braga inverte completamente as doutrinas de Herculano, expostas com tanta lucidez nos seus Estudos sobre o casamento civil, e colloca-se a uma distancia que lhe torna impossivel apreciá-lo com exactidão.
Não ha escripto algum em que Herculano tivesse combatido o casamento catholico; pelo contrario, elle admittia duas especies de casamento: o catholico e o civil. O que repugnava ao seu espirito profundamente liberal e tolerante é que os individuos que não acreditassem no catholicismo se vissem obrigados a receber o sacramento do matrimonio, a praticar um acto contrario ao seu modo de pensar e que elle considerava um verdadeiro sacrilegio, uma offensa á religião. Se Herculano era um velho catholico, se elle estava convicto de que o sacramento do matrimonio remontava aos primeiros seculos do christianismo, como procedeu o grande historiador contra as suas opiniões casando-se catholicamente? Herculano nunca defendeu leis que prohibissem a qualquer individuo o seguir as suas crenças,{36} tinha o mais profundo respeito pela liberdade de consciencia, era inimigo de todas as violencias feitas ao espirito humano, queria liberdade para todos, não era intolerante como os hypocritas da liberdade, que não respeitam a consciencia alheia. Herculano sustentou que devia existir um registo civil especial para os casamentos dos não catholicos, não admittindo que os nubentes fossem interrogados ácerca das suas crenças religiosas, o que, segundo a sua opinião, seria um attentado contra a liberdade de consciencia, um processo verdadeiramente inquisitorial. Quanto ao casamento catholico, considerava-o debaixo de dois aspectos: como sacramento e como contracto. Estando num país, cuja maioria era constituida por catholicos, admittia que o registo ecclesiastico servisse de registo civil. Era assim que o grande historiador procurava conciliar o principio sacrosanto da liberdade de consciencia com o respeito á religião do estado. Sejam quaes forem as opiniões ácerca das doutrinas sustentadas por Herculano relativamente ao casamento civil, é incontestavel que não ha fundamento algum para se affirmar que o seu casamento catholico esteve em contradicção com as suas idéas.
O seguinte trecho dos Estudos sobre o casamento civil é uma prova evidente de quanto é inexacta a opinião do sr. Theophilo Braga:
«O catholicismo puro e desinteressado não tem culpa d'esta horrivel e immensa traição que nas altas regiões da jerarchia sacerdotal se está perpetrando contra elle. Não tem culpa de que o vendam por trinta dinheiros ao anjo mau da reacção politica. O catholicismo não quer{37} que forcem os que não crêem nelle a receber um sacramento, porque não pede um acto que lhe repugna, que reputa uma profanação; não pede que os poderes publicos constranjam os membros do proprio gremio a não peccarem, porque a inquisição é para elle a maior affronta que lhe têm feito os homens. O catholicismo puro não confunde o sacramento, que é cousa espiritual, com o contracto, que é materia juridica, porque desde os tempos apostolicos, conforme temos visto, jámais os confundiram as tradições legitimas da igreja. Considerada a questão á exclusiva luz do direito, o sacerdote que auctorisa o contracto e o abençoa é, no primeiro caso, official civil, e no segundo, ministro da religião. É uma cousa simples, clara, inoffensiva. Em nome da liberdade, deixemo-la ficar na lei.»
O sr. Theophilo Braga tambem cae noutra inexactidão dizendo que Herculano, tendo-se manifestado contra o direito de propriedade litteraria, se contradisse vendendo o manuscripto do Diccionario que o conselheiro Ramalho lhe deixára. Mas onde é que Herculano confundiu a innegavel propriedade de um livro, de um manuscripto ou de qualquer objecto tangivel com o que se chama propriedade litteraria?