Só um genio historico verdadeiramente prodigioso como Herculano, poderia realizar em Portugal o que lá fóra se fez com muito mais elementos. O eminente historiador estava num pais atrazadissimo em estudos historicos e philosophicos, num pais em que uma parte do clero ora roubava documentos ora se recusava energicamente a entregá-los, num pais em que os monumentos historicos dispersos pelas collegiadas e mosteiros desappareceriam completamente se Herculano os não tivesse colligido. Póde alguem, diz Oliveira Martins, avaliar o trabalho do obreiro sem ferramenta nem trabalho são?
O amor da verdade e da justiça predominava de tal modo em Herculano que seria capaz de sacrificar-lhe todos os outros affectos do seu coração; elle punha a verdade acima de tudo. Herculano nunca teve em mira sacrificar a sua consciencia ao serviço de qualquer seita ou partido; no seu rigoroso espirito a paixão pela verdade estava acima da religião e do patriotismo. A grande imparcialidade com que Herculano apreciava não só os papas mas tambem aquelles homens a quem a igreja canonizou, mostra-nos evidentemente que o espirito{25} catholico não suffocou nelle a paixão mais nobre do verdadeiro historiador, o amor da verdade. O seguinte trecho do segundo volume da Historia de Portugal é uma prova da veracidade da minha asserção:
«Ao passo que um homem de genio, Innocencio III, se assentava no solio pontificio para manter a acção da jerarchia sacerdotal, surgiam da obscuridade outros dous homens que haviam de hasteiar de novo a bandeira da abnegação e fazer abraçar pelos seus sectarios a rigorosa pobreza repellida das congregações monasticas, instituindo em frente d'ellas as congregações mendicantes. Ninguem ignora os nomes d'estes dous individuos: Francisco de Assis e Domingos de Gusmão: aquelle, humilde mas abastado burguês italiano que, depois de convertido ao mysticismo, seguia com tanto ardor a vereda da mortificação como antes seguira a espaçosa estrada dos deleites; este, nobre e altivo hespanhol, já revestido de dignidades ecclesiasticas e que se arrojara á grande empreza da reforma sem perder os caracteres da sua raça. Austero e inflexivel, homem cujos avós pelejaram sempre contra os sarracenos com o ferro numa das mãos e o facho do incendio na outra, dir-se-hia que mal sabe combater de diverso modo os que não crêem como elle. A sua exaltação religiosa é intolerante: a luz suave do Evangelho não póde vê-la senão reflexa na espada polida, senão retincta em sangue. O gemido do hereje no patibulo é para elle um hymno ao manso cordeiro do Calvario: para elle o algoz exerce um sacerdocio.»
Neste eloquentissimo parallelo, um dos mais concisos,{26} energicos e claros de todas as litteraturas, mostra-nos Herculano a profunda differença que houve entre os fundadores das duas ordens dos franciscanos e dominicanos. O fanatismo do terrivel S. Domingos de Gusmão foi por elle estigmatizado num estylo vigorosamente poetico; o facto da igreja ter posto este homem feroz, cruel e sanguinario no numero dos santos não impediu Herculano de pintá-lo com toda a fidelidade.
É de admirar que, referindo-se o eminente historiador a estes dois vultos da igreja, não fizesse a mais leve menção do santo mais popular para os portugueses, de Santo Antonio, que não só pertenceu á ordem franciscana mas tambem viveu no reinado de D. Affonso II e cuja gloria o clero português quasi que olvidou durante seculos deixando-o envolto na lenda milagreira e chegando apenas a occupar-se dos seus escriptos e a enaltecer a sua influencia social quando pretendeu fazer manifestações reaccionarias e jesuiticas. Estou profundamente convicto de que, se o grave historiador, apesar de ser eminentemente christão e patriota, não se occupou do referido santo, é porque, relativamente a esta gloria nacional, não encontrou nos cartorios que tão activamente revolveu documentos que satisfizessem o seu espirito extremamente severo e rigoroso. Aquelle grande philosopho, a quem o sr. Theophilo Braga chama catholico ferrenho, punha sempre o amor da verdade acima do proprio catholicismo. Até no modo de considerar a religião christã se revela a poderosa autonomia da sua vasta e profunda intelligencia. Com que energia não combateu Herculano as ambições clericaes, a politica{27} da igreja! O catholicismo, que elle apreciava não só poeticamente mas tambem debaixo do aspecto prático, não o impediu de tirar conclusões, como pretende o auctor da Historia do romantismo. O espirito de Herculano era ainda mais positivo do que o de alguns positivistas que se deixam seduzir pelas miragens da sua imaginação e muitas vezes da imaginação alheia.
Nas Questões de litteratura e arte diz o sr. Theophilo Braga que as primeiras impressões do espirito de Herculano o tornaram um padre por dentro. Porque motivo o distincto escriptor não deu este epitheto a tantos outros portugueses illustres que não só foram catholicos mas nunca luctaram com os padres, nunca ousaram combater energicamente a reacção ultramontana e o jesuitismo, nunca se preoccuparam com os progressos que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que um homem rude, sem instrucção, tendo apenas algumas idéas superficiaes ministradas pelo jornalismo politico, chegue a confundir a religião com o jesuitismo, isso não me admira; o que me causa verdadeiro assombro, o que me impressiona muito desagradavelmente é que o sr. Theophilo Braga, cujo talento é assás notavel, procure deprimir Herculano dando-lhe o epitheto de padre. O grande lyrico João de Deus, vivendo numa epocha menos religiosa, foi um catholico fervoroso que nunca desagradou ao clero como Alexandre Herculano; mas quem se lembrou de dar ao espontaneo, singelo e mavioso poeta do Campo de flores o epitheto de padre? Almeida Garrett, o glorioso reformador do theatro nacional, escreveu um elegantissimo tratado de educação,{28} onde não se revela menos catholico do que Herculano; todavia qual foi o critico que procurou deprimi-lo chamando-lhe padre? Não me consta que alguem désse este epitheto nem a Rebello da Silva por ter sido o auctor dos Fastos da Igreja nem a Camillo Castello Branco por haver escripto uma obra religiosissima, a Divindade de Jesus. A seguirmos a critica do sr. Theophilo Braga, não só poderiamos affirmar que o mosteiro dos Jeronymos ficaria em breve repleto de padres se quizessemos continuar a trasladar para aquelle sumptuoso monumento os restos mortaes dos nossos grandes homens, mas tambem dariamos o referido epitheto á maior parte desses genios prodigiosos cujos descobrimentos scientificos contribuiram tão poderosamente para o progresso da humanidade como Kepler, Newton, Leibnitz, Pascal, Descartes, Claude Bernard, Pasteur e tantos outros, cujo espirito eminentemente religioso é bem notorio.
Herculano era da maxima tolerancia para com aquelles cujas opiniões divergiam das suas; não admittia restricções para a livre manifestação do pensamento. Foi um catholico liberal como o celebre historiador e theologo allemão Doellinger, que fazia d'elle o mais alto conceito e o admirava enthusiasticamente, consultantando-o sobre muitos pontos historicos e chegando a occupar-se, nos Annaes historicos de Munich, da vida e obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores elogios. Na questão religiosa, Doellinger, o grande historiador da igreja, um dos mais profundos theologos da Allemanha, desempenhou um papel semelhante ao de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos{29} velhos catholicos allemães, que ousaram arrostar as furias de Roma; como escriptor e lente de theologia, exerceu um grande prestigio no seu pais, combatendo energicamente as novas modificações feitas no christianismo e procurando assim desviar a mocidade catholica allemã da influencia nefasta dos jesuitas; por isso era mal visto em Roma, era detestado pelo partido jesuitico, pelos sectarios do neo-catholicismo.
Herculano foi o adversario mais temivel que os jesuitas tiveram em Portugal; era dentro do christianismo que elle os combatia com o maximo vigor; os seus vastos e profundos conhecimentos de theologia e de historia ecclesiastica foram as armas mais poderosas por elle manejadas para demonstrar os erros dos ultramontanos e a grande differença que existia entre as doutrinas jesuiticas e as que haviam professado os christãos dos primeiros seculos; era expondo lucidamente as opiniões dos Padres da Igreja e dos antigos papas que elle dava os golpes mais profundos na Companhia de Jesus e no partido ultramontano. Na verdade os jesuitas têm-se afastado tanto da igreja primitiva que não é mister sair do christianismo para combatê-los; é com o Evangelho na mão que mais solidamente se podem refutar os seus erros gravissimos. O Manifesto da Associação popular promotora da educação do sexo feminino, redigido por Herculano, o qual se acha inserto no segundo volume dos Opusculos, é a obra mais eloquente e profunda que em Portugal se tem escripto contra a educação jesuitica; é um livro que deve ser lido por todos aquelles que ainda se preoccupam com o futuro da{30} nossa patria e prezam a moralidade da familia portuguesa. D'este brilhante opusculo vou reproduzir o seguinte trecho, que é sem duvida um dos mais eloquentes que se têm escripto em todas as linguas:
«O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e as suas tristes hesitações na actual conjunctura legitimam, santificam a nossa resolução; porque se trata do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento moral da familia. Uma lei d'esta terra, uma lei de sete seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do adulterio vai ennodoar o seio da familia. É que a familia é a molecula social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se num monte de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminarios da reacção não se hostiliza só a liberdade: ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delicias mais monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs, nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.»
Herculano foi inimigo acerrimo da hypocrisia e do fanatismo; o seu culto era incomparavelmente mais interno do que externo; pela contemplação da natureza é que elle principalmente se elevava á idéa de Deus.