É indubitavel que o christianismo exerceu uma influencia benefica no genio litterario de Herculano. Foi nas paginas sublimes da Biblia que Herculano bebeu uma parte das suas inspirações; foi no estylo biblico que elle escreveu o terrivel e eloquente opusculo A Voz do propheta e os sublimes e dolorosos cantos do presbytero de Carteia, que fazem parte do seu mais bello e magestoso romance, a que deu o titulo de Eurico. Mas, no emprego do estylo biblico, Herculano, longe de ser um simples imitador, revelou sempre a poderosa originalidade que caracteriza todos os seus escriptos.
O sr. Theophilo Braga, na sua Historia do romantismo, diz que Herculano não se elevou acima da metaphysica christã; mas o distincto professor esqueceu-se de accrescentar que no tempo de Herculano a maior parte dos grandes espiritos que tanto illustraram o seu seculo nos paizes mais adiantados da Europa e da America, se achavam no mesmo estado psychologico e que a philosophia positiva ainda não conseguiu derribar o espiritualismo.
Em todas as escolas philosophicas tem havido pensadores{20} profundos. O espiritualismo christão não impediu Herculano de ser um dos mais eminentes historiadores do seu seculo, assim como não tirou mais modernamente ao immortal Pasteur a glória de ser um sabio de primeira ordem, um dos maiores bemfeitores da humanidade. Não obstante as grandes modificações por que passou o altissimo espirito de Victor Hugo, eu considero o seu christianismo, embora philosophico, incomparavelmente mais puro do que o de Torquemada e S. Domingos de Gusmão, cujo procedimento fanatico estava em completo antagonismo com os principios sublimes, com as maximas sacrosantas proclamadas no Evangelho. Victor Hugo, apesar do seu espiritualismo ardente e do seu enthusiasmo pela moral evangelica, foi um dos escriptores mais eloquentes e philosophicos que a França tem produzido. Se Guizot e Thierry na França, Cantu na Italia, Maccaulay na Inglaterra, Herder e Niebuhr na Allemanha, Prescott nos Estados-Unidos da America puderam ser ao mesmo tempo historiadores de primeira ordem e espiritualistas christãos, porque não poderia succeder o mesmo em Portugal a Alexandre Herculano? Condemnar este grande homem pelo seu espiritualismo ardente e pelas suas crenças religiosas seria o mesmo que condemnar a sua epocha e a escola romantica de que elle foi um dos mais distinctos ornamentos, seria faltar á justiça e imparcialidade que deve ter o verdadeiro critico.
Creio que, em quanto a humanidade existir, ha de haver sempre discordancia em materia philosophica. A historia da philosophia, diz Herculano, é a historia de{21} um edificio começado ha milhares d'annos em que um seculo revolve os fundamentos que outro lançou, para lançar os seus, os quaes egualmente são revolvidos pelo seculo seguinte, cujos trabalhos condemnará o que vier após elle. A duvida, a que o espirito de Herculano era naturalmente propenso, como se revela em muitos dos seus escriptos, impedia-o de se deixar dominar completamente pelas crenças religiosas, que nunca exerceram a minima influencia nas suas investigações historicas. Esta minha opinião é completamente opposta á que o sr. Theophilo Braga manifesta na Historia do romantismo quando nega a Herculano a possibilidade de comprehender a vida politica do povo portuguez pelo facto de ser um christão fervoroso e poetico. Mas o distincto escriptor contradiz-se na mesma página quando, para deprimir Herculano, faz os maiores elogios a Agostinho Thierry, que não era menos christão do que o principe dos historiadores portugueses.
Nenhum escriptor do romanticismo foi apreciado tão injustamente pelos seus adversarios como Alexandre Herculano, o que para mim é mais uma prova do seu immenso valor. Herculano, que foi accusado de impio pelos partidarios da reacção ultramontana e do jesuitismo, tem sido criticado injustamente por alguns escriptores que, declarando-se sectarios do positivismo, estão muito longe de seguir as pisadas de Taine e de Littré, dois positivistas eminentes que, pelo seu caracter austero, espirito philosophico e estylo elegante, primoroso, correcto e limpido, se tornaram dignos da veneração não só da França mas de todo o mundo. Venero todos{22} os grandes homens, seja qual for a sua escola, porque todos têm contribuido poderosamente para o progresso; o que detesto é a injustiça, a maledicencia e o fanatismo. O critico, para ser eminente, deve pôr a sua consciencia acima de todos os preconceitos, de todo o espirito do partido.
O amor da verdade é a principal qualidade do historiador. Foi esta qualidade, associada a muitas outras, que fez com que Herculano fosse um dos maiores historiadores do mundo. Eu não quero dizer que elle não se enganasse, porque isso seria contrario á natureza humana; não ha ninguem infallivel, a não ser o padre santo para os partidarios do neo-catholicismo ou do catholicismo influenciado pela Companhia de Jesus. O que é certo é que Herculano examinava com a mais profunda attenção tudo quanto escrevia, empregava todos os meios de não falsear a historia, tudo sacrificava ao amor da verdade, fazia fallar os factos, não enchia a historia de generalizações falsas, intempestivas e absurdas; tudo quanto dizia firmava-se em documentos que elle criticava com a maior severidade e de cuja authenticidade estava profundamente convicto; não fazia syntheses que não se estribassem na mais profunda e rigorosa analyse. O mais abalisado analysta historico que Portugal tem produzido teve sempre receio de cair nessa laboração subjectiva, falsa e imaginosa, que caracteriza muitos espiritos do seculo dezanove.
Quantas obras historicas se não tem escripto, que, em vez da verdadeira philosophia da historia, nos apresentam a philosophia dos seus auctores! Os trabalhos{23} historicos de Herculano foram incomparavelmente mais syntheticos do que tudo quanto no seu genero se havia escripto anteriormente em Portugal; mas, se a generalização philosophica não existe nelles mais copiosamente é porque ainda se não tinham realizado com a amplitude indispensavel as investigações eruditas sem as quaes toda a philosophia da historia seria apenas um edificio sem base; é porque ainda escasseavam os materiaes sufficientes para se poderem fazer em larga escala syntheses profundas, exactas e rigorosas.
Quantas syntheses formuladas no seculo dezanove não serão materia de riso para o seculo vigesimo! Os escriptores gongoricos e nebulosos, que têm falsificado a historia com syntheses falsas e temerarias, parecem-se com aquelle fidalgo da Mancha, chamado D. Quichote, que em cada moinho de vento via um gigante, em cada rebanho um grande exercito; no seu furor de generalizar, os modernos gongoristas em cada facto vêem uma lei.
Diz o snr. Theophilo Braga que Herculano não possuia disciplina philosophica; eu estou profundamente convicto do contrario. Foi a disciplina philosophica que deu a Herculano o mais excellente methodo no modo de escrever historia; foi ella que fez com que o nosso grande historiador procedesse sensatamente, começando pelo exame rigoroso dos documentos, passando á anályse exacta e minuciosa dos factos e por fim á generalização philosophica, de que elle usou com a devida sobriedade. Os historiadores que, em vez de ter o maximo rigor na investigação dos acontecimentos, enchem a historia de{24} syntheses phantasticas e plagiadas, é que revelam falta de disciplina philosophica.
O methodo seguido por Herculano está em perfeita harmonia com as doutrinas de um dos maiores luminares da philosophia, o grande Bacon, que sustentava que a generalização se devia fazer vagarosamente, considerando as syntheses feitas á pressa como um grande obstaculo ao progresso das sciencias e uma causa poderosa da multiplicação das polemicas.