Herculano não era certamente um inimigo da philosophia; o que apenas teve em vista no prologo do «Parocho d'aldeia» foi exprimir as agonias intimas produzidas pelo scepticismo involuntario e mostrar quão doce era a tranquillidade gerada pela crença viva. O homem que introduziu em Portugal a philosophia da historia e que tão eloquentemente advogou nalguns dos seus escriptos a causa da instrucção popular, deu bastantes provas de quanto amava a cultura scientifica e philosophica.{16} Aquelle prologo é apenas um desabafo de poeta, uma manifestação sincera e profundamente lancinante dos tormentos que opprimiam a sua alma, que gemia na duvida, embora nella estivesse profundamente gravado o sentimento religioso.
Os escriptores mais eloquentes têm ordinariamente sido religiosos. Se a nossa imaginação se transportar á Grecia, á patria da poesia, da eloquencia e da philosophia, lá encontraremos a propagar o idealismo o divino Platão, aquelle grande philosopho a quem Mithridates levantou uma estatua e Aristoteles um altar e cujo estylo poetico, enthusiastico, doce e harmonioso ainda hoje causa a admiração do mundo. Com que energia não é expresso o sentimento religioso nas sublimes odes de Pindaro e nas solemnes e magestosas tragedias de Eschylo!
Passemos a Roma, e lá acharemos o sentimento religioso revelado nas obras de Virgilio, de Cicero e de Tito Livio. O grande Lucrecio, o mais profundo e um dos mais eloquentes poetas romanos, que no seu brilhante poema «Da natureza das cousas» romanizou o epicurismo, negou a existencia dos deuses e a immortalidade da alma, divinizou a materia, explicou a origem do mundo sem intervenção divina e aconselhou o suicidio, foi sem duvida uma excepção.
Mas em nenhuma litteratura da antiguidade se exprimiu o sentimento religioso com tanta simplicidade, força, doçura, nobreza e sublimidade como na litteratura hebraica. Ainda nenhum escriptor antigo ou moderno conseguiu ser mais sublime do que Isaias, nem mais{17} sentimental e terno do que David, nem mais magestoso do que Moysés, nem mais melancolico do que Jeremias.
Na edade média apparece-nos o sublime Dante, o cantor do catholicismo, produzindo essa obra prima intitulada A Divina Comedia, que levará o nome do seu auctor á mais remota posteridade e que é uma das mais bellas producções do espirito humano.
Nos tempos modernos foi o sentimento religioso que inspirou a Milton a sua maravilhosa e sublime epopeia O Paraizo Perdido, a Bossuet as suas eloquentes Orações funebres e a Pascal os seus profundos e magestosos Pensamentos.
No seculo dezoito, nesse seculo philosophico e revolucionario em que fizeram grandes progressos o scepticismo e a incredulidade e se propagaram com immensa actividade as doutrinas que deviam produzir as grandes tempestades politicas e sociaes, nesse grande seculo, ao qual devemos comtudo immensos beneficios, João Jacques Rousseau, um dos mais eloquentes prosadores franceses, defendeu com muito enthusiasmo a existencia de Deus e a immortalidade da alma e exaltou a moral evangelica, distinguindo-se pelo seu deismo ardente, que elle manifestou num estylo tão suave e harmonioso que faz lembrar o de Platão.
No seculo dezanove, o seculo dos estudos historicos e da philosophia positiva, vemos o sentimento religioso expresso com uma vivacidade admiravel nas obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Manzoni, Walter Scott, Lamennais, Renan, Thierry, Guizot, Michelet,{18} Flammarion, Tolstoi e muitos outros. Este sentimento sublime do coração humano existe não só nos que professam o christianismo ou qualquer outra religião positiva mas tambem em todos os sectarios da religião natural.
Como a religião tem raizes profundas no coração do homem, hão de existir sempre, por mais alto que se eleve a sua intelligencia, almas apaixonadas que se comprazam em estar abrasadas no fogo sagrado do sentimento religioso. Eu não creio que este venha a extinguir-se no seio da humanidade mas estou profundamente convicto de que com o progresso da civilização a religião individual se ha de tornar cada vez mais pura, isto é, se ha de ir libertando das superstições com que a têm deturpado a imaginação e a ignorancia dos povos e os interesses sacerdotaes. Embora se derribassem os altares e se destruissem os templos, a religiosidade havia de existir perpetuamente no coração do homem porque bastaria a contemplação da natureza magestosa e bella que nos circumda para despertar em nós a idéa mais sublime a que se elevou a intelligencia humana, a idéa de Deus.
Se Herculano, além de ser um grande poeta, foi um dos prosadores mais poeticos e eloquentes que têm existido em todos os seculos, que admira que o seu espirito fosse eminentemente religioso? Todas as crenças são dignas do maximo respeito comtanto que haja sinceridade naquelles que as professam. O homem que não respeita as opiniões alheias é inimigo da tolerancia e da liberdade, por mais avançadas que pareçam{19} as suas idéas. O fanatismo philosophico é para mim tão reprehensivel como o fanatismo religioso. Considero pois injusto, absurdo e ridiculo o deprimir Herculano por causa da sua paixão ardente pelo christianismo, da sua crença em Deus e na immortalidade da alma, como o têm feito alguns d'esses criticos superficiaes ou mal intencionados que costumam apparecer em todas as epochas para depreciar as obras mais excellentes que tem produzido o genio do homem.