Pelos escriptos de Herculano conhecemos muitos factos da sua vida, narrados com a sinceridade que caracterizava o eminente escriptor. No Monge de Cister diz elle, referindo-se aos dias-santos dos seus tenros annos: «Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava nos jogos e brinquedos, que são proprios d'aquella edade; mas, quando o sol descia para o horizonte, ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair num tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho que se condensava brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que nelles bailavam. E alli me achava a noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas ficava-me cá a saudade...»

Estas palavras eloquentes e repassadas da mais vehemente poesia mostram-nos que já na sua infancia Herculano revelava uma grande tendencia para a solidão, um temperamento melancolico, um espirito assás meditabundo, um coração muito impressionavel, uma alma verdadeiramente poetica, onde se começava a accender{12} o amor da natureza. As suas tendencias infantis não denunciariam já o grave e austero solitario de Valle de Lobos? Aquella creança prodigiosa, que se afastava dos seus companheiros para meditar, havia de ser mais tarde o vigoroso cantor da Semana Santa e da Arrabida, o sublime idealista do Eurico e o renovador dos estudos historicos em Portugal.

Para bem se avaliarem os escriptos e as opiniões de Herculano é mister que examinemos a sua educação. Não ha homem algum, por maior que seja o seu espirito, em quem a educação não exerça uma poderosa influencia; são profundos os vestigios que deixam no espirito os primeiros habitos e idéas.

Herculano era naturalmente religioso como a maior parte dos grandes poetas, mas a educação que recebeu contribuiu poderosamente para que no seu espirito ficassem profundamente gravadas as crenças christãs. Estas crenças foram certamente modificadas pelo espirito philosophico de que a natureza o dotara, mas, embora chegasse a combater com a maior energia os novos dogmas que Roma introduziu no catholicismo, nunca em seu espirito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou um só dos principios fundamentaes do verdadeiro christianismo. Em toda a sua vida foi um crente sincero, um enthusiasta da moral evangelica, um espiritualista ardente. Era um velho catholico, um sectario intransigente da igreja primitiva. Foi considerado hereje por uma grande parte do clero, mas aquelle hereje era um verdadeiro christão, que não admittia innovações no catholicismo nem transigia com a Companhia de Jesus.{13}

A lucta que se travava no seu espirito entre a fé e o raciocinio, entre a religião e a philosophia, e que só póde ser devidamente avaliada por aquellas almas apaixonadas que, depois de receberem uma educação eminentemente christã, se acham invadidas pelo verme roedor do scepticismo, essa lucta dolorosa em que se estorce a alma do crente illustrado está admiravelmente descripta no magnifico prologo do «Parocho d'aldeia», onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade rivaliza com a dos mais bellos monumentos da poesia religiosa de todos os seculos:

«Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille; sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:—«Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque, filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até á hora de expirar na ignominia, até á hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio d'esta associação monstruosa da saude, do ouro, do poderio e dos crimes a um lado, e a da enfermidade, da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além{14} do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horizonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida collocando no logar do destino a Providencia, e no do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo, um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste na verdade um Deus?»

Como é profundamente arrebatador este bellissimo trecho, onde o sentimento religioso é expresso com tanto vigor como nos Pensamentos de Pascal ou nos Sermões de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se reunem do modo mais assombroso! No eloquentissimo prologo do «Parocho d'aldeia» ha mais profundeza, energia e solemnidade do que nos mais bellos capitulos do «Genio do christianismo» de Chateaubriand. Este admiravel prologo é um verdadeiro poema philosophico, onde se revela um raciocinio vigoroso alliado a uma pujante imaginação e ardentissima sensibilidade.

Como Pascal, Herculano caiu no scepticismo philosophico e, vendo quão profundas eram as dores que a duvida produzia na sua alma e quão grande era a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz, procurando refugio na religião, que era para elle uma fonte perenne de consolações e onde encontrava tudo quanto havia mais bello e grandioso para o seu coração ardentissimo, tudo quanto podia satisfazer a sua{15} grande imaginação de poeta. Para Herculano o christianismo era não só a mais sublime de todas as religiões mas a causa principal da civilização moderna. Não ensinou Christo que todos os homens eram eguaes perante Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi elle quem primeiro prégou a fraternidade universal e a tolerancia? Não causaram as suas palavras vibrantes e sonoras, os seus discursos profundamente liberaes tanto susto aos tyrannos e hypocritas?

Para Herculano o christianismo era um facto altamente grandioso não só pelo lado poetico mas tambem pelo lado social; para elle tinham uma significação profundamente analoga estas duas palavras: redempção e liberdade.

Em Herculano havia duas almas, que mantinham entre si um perfeito equilibrio: uma, religiosa e poetica; outra, philosophica e propensa ao scepticismo. A primeira fez d'elle um escriptor de primeira ordem; a segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa historia tudo quanto nella havia phantastico e milagroso.