CAPITULO VIII

Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.

A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei, e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com ella.

Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera fazer.

CAPITULO IX

Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas Moniz.

Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto, que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a graça de Deos».

CAPITULO X

Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de Guimarães.

Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então D. Egas Moniz, e disse.