«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».
Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua molher, e filhos tornar para Portugal.
CAPITULO XI
Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.
Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães, onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes, começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus, passáram alguns dias.
E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D. Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.
CAPITULO XII
Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros daquelle tempo.
Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria, e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa gente, que era bastante para peleijar com elle.
E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio, e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D. Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente. Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal, ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado Cavalleiro.