Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S. Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos, conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia deixar de ser.
CAPITULO XIII
Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como sentaram seus arraiaes um á vista do outro.
Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D. Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D. Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova, mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor, mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida, que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes, foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar, que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor de mil cento e trinta e nove (1139).
CAPITULO XIV
Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez sobre esso.
Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella, e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha». Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos ajuntados, assi começou.
«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando, que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos, pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal, morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão, e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós, e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio, faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde me faça mester vossas mãos, e ajuda».
Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam, responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia, elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde elles decendiam.