Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.
Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».
E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse, e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo: «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados, e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada fama.
CAPITULO XVI
Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.
Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria. Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves, que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D. Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.
Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados, correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado, e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem, não havia poder maior que os não temesse.
Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor, nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa, que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para peleijar». Respondeo elle e disse:
«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue, como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é, será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos: «Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito, e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei, e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real, por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil cento e trinta e nove (1139).