Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento della.
Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.
Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D. Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.
Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram; porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que disse.
CAPITULO XVIII
Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados.
Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo, como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem, e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos, pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta dinheiros, e desta maneira se trazem agora.
Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão, outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar de cativeiro.
Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres. Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado, e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S. Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.