Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della, escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada, e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido, segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa, mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.
El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide, leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação, e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora, como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer: mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo». Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa Eyrea Martyre que a ella veio ter.
CAPITULO XXXIV
Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.
Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo que se segue.
Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar terra á rocha de Sintra.
Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava, vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.
Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como elles bem veriam.
Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos, edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D. Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca velha.
Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço, passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.