Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados, peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos, paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.
CAPITULO XXXV
Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras.
Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo sua ordem, com Te Deum laudamus, entraram nella, e assi foi consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei, e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»
Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho, e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo, offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer, que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: todos a fazemos, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante Deos se alcança.
CAPITULO XXXVI
Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.
Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente diremos.
Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos, e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi, e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo, ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara, começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera pelos merecimentos deste Cavalleiro.
E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta, por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.