Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas, e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento; no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D. Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde, e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua gente, e Corte.

CAPITULO XLIII

Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella, e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos. Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente, começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até ir recado aos do arraial.

El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos, quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos, poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo, haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço, nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou de morto me não partir do campo».

Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço, e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados, antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo, que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração, e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam. Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve dello, e assi houve a Villa de Palmella.

CAPITULO XLIV

Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.

Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando. Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella, e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.

«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é, disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas mãos do que eu cuidava.»