Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa, entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si, fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra, que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que lhe prazia.

Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem, El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna, foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão, segundo atraz nesta Estoria se contem.

CAPITULO XLV

Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as maldições dos pais, e mãis aos filhos.

O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D. Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis, segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos, porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça, e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural reverencia, e amor.

E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens, e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais, e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos, que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho: «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam, e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos, leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo, em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos, se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.

CAPITULO XLVI

Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D. Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e os desbaratou e venceo.

Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens, e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias, tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava, destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros, concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz, e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.» Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar, e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos, (1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.