Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D. Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos, que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D. Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui trazido.

CAPITULO XLVII

Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o foram buscar.

Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente, e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação, vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado, e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com muito prazer a salvamento.

CAPITULO XLVIII

Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.

Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era, arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D. Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos, foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N. Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór, e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho, lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S. Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).

CAPITULO XLIX

Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre ello disse.