Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D. Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D. Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora commeces, e o faças.»
Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade, e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia; esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no feito da guerra, que havia de começar.
CAPITULO L
Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.
Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção, e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N. Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.
CAPITULO LI
Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com os Mouros peleijasse.
Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja, pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de gente, que para sua defensão lhe fazia mister.
O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178) e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho, contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço. Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha, pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar, que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas, e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N. Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer, nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos, não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em que lugar ha de ir, e estar».