Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
CXXVII).

==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517 «carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade. E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano, seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460, ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis, seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de mór importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui sufficiente, conforme o reputa Rui de Pina.

Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus he elle qualificado por Damião de Goes. Raro em sciencia e valor o denomina João Pinto Ribeiro; homem douto, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se modernamente:

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC. XXVI.==fol.

«Nesta Chronica, que Duarte Galvão diz, que fez de novo (são palavras de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção, como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel, assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de emendar escritos alhêos, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão sómente lhe apurára a lingoagem antiga em que estava escrita

«E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:

«Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques, que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava, como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes, Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita Chronica==.

Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias desta Chronica. A marcada B—12—8 tem no final a data 1568. Bello exemplar é a B—4—2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca a B—4—4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas notas e explicações do texto.

Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.