Antes d'isto a publicação da Monarquia Lusitana, pòde suppôr-se, tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.
Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto (1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.
Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
Galvão
A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela 1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.
«O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana, «se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma copia fiel Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».
A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.
No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo seguinte:—«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor, senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.
Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu Duarte Galvão.»
Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente e delicado. São suas palavras:
«Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas como vejo riscado nella alguns capitulos, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr. Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»…