A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da Monarchia Portugueza.

Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle dedicado um capitulo inteiro ao texto e á refutação das fabulas da Chronica velha[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.

Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o—1824). Ahi encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».

Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza nos metteria para a qual não temos forças.

Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de D. Affonso Henriques—seu casamento com D. Fernando Peres de Trava, Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem já era casada) a usurpou,[2]—suas desavenças com seu filho e guerras que contra elle suscitou,—a jornada que por causa do exito de uma destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;—a prisão a que D. Affonso Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com o Papa:—todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado, como fortemente combatido.

Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D. Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa—1825), assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto d'um dos nossos antigos Chronistas.

Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada, nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a verdade de toda a narrativa de Galvão.

Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão d'infamias á propria irmã dessa mesma princêza, com quem igualava em nobreza!

Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D. Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para certificar-se do que era verdade.