Sobre o Bispo negro não deixa de parecer especiosa a explicação que offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:—

«Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a mal tramada Fabula do Bispo Negro. Este foi D. Bernardo, Francez de Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma D. Tello) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge nunca depôz o habito dos Negros como então chamavão aos que professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um Bispo Negro, para não dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».

Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.

A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os Codices que se guardavão na Torra do Tombo.

A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia daquelles tempos.

Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
Manuscriptas. A maior parte são compilações.

Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.

G. Pereira.