Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de cognac e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.
Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.
Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de amores pagãos.
Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:
—Que quer?
Eu fiquei calado.
—Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não?
Estou prompta. É pôr um chale.
—Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.
—Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a futilidade. Ah! sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os policemen.
Eu disse-lhe então, em voz baixa: