—A Africa, respondeu lord Grenley.
Ella ficou olhando vagamente:
—Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo… Era em maio…
Calou-se. E voltando-se para mim:
—Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle punch a bordo do Ceylão? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então… O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!
E como fallando comsigo mesma:
—Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle… Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois… O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.
Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.
—Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me és bonita, amo-te! E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E elle? lembrar-se-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!
E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.