A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.
—Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como monitores armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!
De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a dispersão!
Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!
Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres em plena liberdade da natureza.
Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n'um quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos elementos!
Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!
Não te pregarão n'um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os teus cabellos; poderás toucar-te d'algas; os raios do sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife será o infinito azul.
Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.
Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo como n'uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado d'algum louro principe, outr'ora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!