Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancolico velho que visita os seus mortos.

Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome…

Um marinheiro bateu-me no hombro.

—São 11 horas, disse elle.

Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado formando no meu cerebro n'aquelle triste scismar, disse commigo:

—Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.

Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda.
Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes.

Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o. Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As botinhas d'ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina.

O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E affastando-se, disse:

In eternum sit!