«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos; uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um coupé escuro com bons stores; reserva e amisade.—Frater, Rytmel.»
Executei escrupulosamente as suas determinações.
Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton.
Pareceu-me mais triste, mais concentrado.
Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa, fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no indefinido da conversação.
A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.
Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um coupé cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.
De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço, em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo. Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a Imitação.
N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.
Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na Trapa, no socego immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.
Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então escreviam pequeninos poemas no tablado do Theâtre du Prince Royal.