Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:
«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em… (era uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão). Traga o seu amigo Rytmel.»
Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na estrada de… n'um coupé com os stores corridos.
A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta, apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora, cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.
Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler. A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As cousas pareciam contemplar e sonhar.
Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a condessa chamava a sua taça.
—O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho… disse Rytmel, sorrindo.
—E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque, representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!
Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da condessa,—encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande antiguidade á tradição do amor!
Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu no entanto olhava a condessa.