Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa. Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim, nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a que poderiamos chammar—a isolação da alma.

Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe:

—Sabe mais alguem d'este caso? —Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H… a quem hoje escrevi. Meu primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui. Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo, enterro-me viva… como quiserem!

—E sabe seu primo como elle morreu?

—Não. Vai saber apenas que está morto…

—Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos?

—Posso. Por toda a vida.

—Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E… elle, onde está?

—Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o…

—Para entrar na casa…