—Ha uma chave—respondeu ella.
E tendo meditado um momento:
—Hontem—prosseguiu—quando lhe disse que viesse hoje a minha casa, estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!… Foi n'este delirio que lhe pedi a V…, um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me… Para quê?.. nem eu sabia para quê… Para contar isto a alguem, para me decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para fugir de mim mesma… Ir á policia era entregar esse infeliz á mais horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço, ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de vergonha e de ignominia!… Não. Era melhor fugir para o desconhecido, entregar-me ao acaso… Em tudo isto pensei confusamente, não sei como, sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha hontem… Não sei o que hei de fazer… Sinto apenas que estou perdida, que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem… O senhor parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom… Sabe já o que me succedeu, sabe onde elle está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o numero da porta. Aqui tem a chave.
E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a.
Deixou-se cahir n'um fauteuil, inclinou a cabeça para traz e ficou prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas.
Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso, primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós commigo mesmo, reflectir, raciocinar.
—Minha senhora—disse-lhe então—se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo. Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista, violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever. Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.
Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer, procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi.
V
Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez. Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda.