Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada uma das phrases que ia lendo?… Era-me forçoso abandonar este recurso, e o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por fim, levando o livro comigo.
Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa, acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção.
Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez, italiano, allemão, inglez, hispanhol… O nome de Ernesto Renan apparecia sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois.
A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da variedade dos nomes e da differença de linguas.
Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto.
Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse o nome que desejava conhecer.
Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de enveloppe; tinha no alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se: Mr. W. Rytmel.
Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos inglezes.
A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome do morto.
Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror.
Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava
um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore.
Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio.