Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de barão e duas grandes lettras—um W. e um R.

Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos assignados por W. Rytmel.

É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio. D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio desappareciam.

A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.

Mas eu ficava sendo um falsario. Repeti a mim mesmo esta palavra sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto. Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado, devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando todavia para mim uma parte egual no seu remorso.

Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê, levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração, cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta historia pelo nome de mascarado alto.

O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra.

Sabem o que se passou n'essa noite.

VI

No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno do cadaver.