O conde estava então em Bruxellas. Era noite e na minha sala de musica achavam-se reunidas algumas pessoas: a marqueza de… velha legitimista, que fôra a graça da córte toureira de D. Miguel; o visconde de… moço insignificante e vagamente loiro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que morrera, fôra a minha intima, a minha confidente de collegio.
Viera tambem a viscondessa de… pequenita creatura petulante e mediocre, que tinha a graça de ter vinte annos, junta com a desgraça de os não saber ter e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa, quando era apenas perfeitamente incaracteristica. Mas ao pé de mim, sentado n'um sophá com um abandono asiatico, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido—Carlos Fradique Mendes. Passava por ser apenas um excentrico, mas era realmente um grande espirito. Eu estimava-o, pelo seu caracter impeccavel, e pela feição violenta, quasi cruel, do seu talento. Fôra amigo de Carlos Beaudelaire e tinha como elle o olhar frio, felino, magnetico, inquisitorial. Como Beaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quasi uma obra d'arte, ao mesmo tempo exotica e correcta. Havia em todo o seu exterior o que quer que fosse da feição romantica que tem o Satan de Ary Sheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um gentleman. Tocava admiravelmente violoncello, era um terrivel jogador d'armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fôra corsario grego. O seu espirito tinha um imprevisto profundo e que fazia scismar: fôra elle que dissera da pallida duquesa de Morny: elle a la bêtise melancolique d'un ange. O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo conjunctamente a critica profunda de uma physionomia e de um caracter.
Carlos Fradique tinha por mim uma amisade elevada e sincera. Chamava-me seu querido irmão. Conhecia-me desde pequena, andara commigo ao colo. Em Paris tornou-se celebre; era o que se poderia chamar um philosopho do boulevard. Tinha sido l'ami de coeur de Rigolboche, e quando ella rompeu por se ter apaixonado por Capoul, Carlos Fradique deixou-lhe no album uns versos quasi sublimes, de um desdem cruel, de um comico lugubre, uma especie de Dies irae do dandysmo… Promettia á Rigolboche que quando ella morresse elle velaria para que ainda além do tumulo ella vivesse no chic, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrophes que elle traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e escola…
E eu qu'inda te amo, ó pallida canalha,
Que sou gentil e bom,
Far-te-hei enterrar n'uma mortalha
Talhada á Benoiton!
Irei á noite com Marie Larife,
Venus do macadam,
Fazer sentir ao pó do teu esquife
Os gostos do cancan…
E no tempo das courses, p'lo verão
—Assim t'o juro eu—
Irei dar parte á tua podridão
Se o Gladiador venceu…
Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassivel, quasi languida, contava as situações monstruosas de uma paixão mystica que tivera por uma negra antropophaga. A sua veia, n'aquelle dia, era toda grotesca.
—A pobre creatura, dizia elle, untava os cabellos com um oleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado d'amor, approximei-me d'ella, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nú. Queria fazer-lhe aquelle mimo! Ella cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em soffrer por ella. Suffoquei a dôr, e estendi-lhe outra vez o braço…
—Oh! sr. Fradique! gritaram todos, escandalisados com a invenção monstruosa.
—Comeu mais, continuou elle gravemente, gostou e pediu outra vez.
Fallava com um sorriso fino, quasi beatifico. Nós iamos revoltar-nos contra a cruel excentricidade d'aquella historia.
N'este momento vi á porta da sala, trémula, com um grande espanto nos olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ella tomou-me pela mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo n'um grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido: