—O sr. Carlos Fradique, disse eu, antigo pirata.
Os dois homens apertaram a mão.
—A senhora condessa lisongeia-me extremamente. Eu fui apenas corsario, disse Carlos.
Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A luz envolvia-o. Estava mais pallido, o seu rosto apresentava linhas mais graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e funda que a dominava.
Fradique continuava fallando. Agora fazia a critica das mulheres do Norte.
—A irlandeza, dizia elle, tem mais que nenhuma mulher, a graça… Sobre tudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a melhor sciencia para um espirito feminino—é um lago. Aquella agua immovel, azul, pallida, fria, pacifica, dá um extremo repouso á alma, uma necessidade de cousas justas, um habito de recolhimento e de pensamento, um amor da modestia e das cousas intimas, o segredo de ser infinito, sendo monotono, e a sciencia de perdoar… Exijo na mulher com quem casar, que tenha as unhas rosadas e polidas, e um anno de convivencia com um lago!
Eu vi Rytmel córar de leve e torcer nervosamente o bigode.
Pelo lucido instincto da paixão, comprehendi que entre aquella glorificação dos lagos, e os occultos pensamentos de Rytmel, havia uma affinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabellos irlandezes de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique:
—Meu caro amigo, um pouco do seu violoncello, sim?
A sala abria sobre os jardins. A placida respiração do vento fazia arfar as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma ballada das margens do mar do norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das aguas, o feerico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um pirata norvegio, a fria lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da varanda, e emquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncello, lembravam-me as antigas cousas do meu amor, o Ceylão, as noites silenciosas em que elle me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar parecia uma affirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos da lua, as moitas de rosas de Clarence-Hotel, os prados suaves de Ville d'Avray; via-o ferido, pallido sobre as suas almofadas; via-o a bordo do Romantic, commandando as manobras da fuga, chorando os desastres do amor… E estas memorias emballavam-se no meu cerebro, confundidas com as melodias do violoncello.