Nós abrimos-lhe passagem para que sahisse. A condessa, n'uma pallidez cadaverica, vacillava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em pé. O mascarado alto deu-lhe o braço. Ella fez um movimento como se tentasse fallar; o seu rosto contrahiu-se n'uma profunda expressão de dôr; hesitou um momento; por fim comprimiu os beiços no lenço e sahiu abafando uma palavra ou estrangulando um soluço.

Momentos depois ouvimos a carruagem affastando-se com aquillo que fôra no mundo a condessa de W…

Haviamos accordado no modo de occultar o cadaver, o que se tornava tanto mais facil quanto era inteiramente ignorada a assistencia do capitão em Lisboa.

Vieramos para o pavimento inferior do predio, a uma casa terrea, a que se descia por quatro degraus para baixo do solo. Era ao fim da tarde. Estavamos alumiados com a luz das velas, porque não entrava na loja a luz do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentia-se o cheiro humido e acre da terra revolvida. Dois dos individuos a que tenho chamado os mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas côr de rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó.

Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de viagem.

Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa murcha. A cabeça d'elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis, davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas. Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de ouro n'uma superficie de marfim.

Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava melancolicamente…

Pobre Rytmel! Se n'este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes, a brancura da tua campa. O orvalho das madrugadas não chorará nas flores do teu jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmo que podesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pallida, procurará debalde a grade em que se ampare ao dobrar os joelhos e levantar para o céu esse olhar de interrogação em que a lembrança dos filhos mortos se envolve como na tunica luminosa de uma ressurreição.

O mascarado alto, curvou-se sobre o cadaver de Captain Rytmel e ergueu-o vigorosamente pelos hombros. Nós amparámos o corpo e descemol-o ao fundo da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o rosto do morto e disse, como se estivesse fallando a uma creança adormecida:

—Descança em paz! Eu irei dizer a tua mãe o logar em que repousa o teu corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura depois de ter recebido no meu proprio seio as lagrimas que ella derramar por ti. Adeus, Rytmel! adeus!