E impelliu em seguida para dentro da cova uma grande porção da terra amontoada aos pés. A terra desabou de chofre sobre o cadaver, levantando um som baço e molle.
II
Examinámos depois os papeis de Rytmel afim de coordenarmos os seus negocios. Verificou-se a existencia de mil e trezentas libras em notas do banco de Inglaterra. Entre as cartas não havia uma só letra de miss Shorn.
Nenhum de nós tinha o espirito bastante socegado para poder reentrar immediatamente nos assumptos triviaes da existencia. Resolvemos permanecer ali até que decorressem alguns dias sobre a catastrophe de que tinhamos sido testemunhas.
O predio em que estavamos foi comprado em nome de lady… a mãe de Rytmel, e n'elle se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um cofre de ferro, damasquinado d'ouro e destinado a receber as cinzas do morto, foi collocado no logar em que elle se achava sepultado.
O mascarado alto dispunha-se a partir para Londres quando tivemos noticia da publicação das cartas do doutor n'este periodico. A condessa declarou que se entregaria á policia, se não levantassemos na imprensa as suspeitas formuladas na carta de Z… ácerca da probidade do medico, e se F… se não desdissesse categoricamente das injurias que nos dirigira na carta imtempestivamente mandada ao dr… por intermedio de Friedlann. A condessa auctorisava-nos a tornarmos publica a sua historia, dizendo que tinha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a biographia que ella lhe legava seria talvez um exemplo proficuo.
Foi então, sr. redactor, que determinámos referir-lhe todos os pormenores d'este doloroso acontecimento, occultando ou substituindo os nomes das pessoas que tiveram parte n'elle, e deixando á sociedade a faculdade de as descobrir e o direito de condemnal-as ou absolvel-as.
A condessa resolveu em seguida entrar em um convento, que ella mesma escolheu depois de miudas indagações. O mascarado alto acompanhou-a e eu segui-o a uma villa da provincia do Minho, onde existe ainda, regido com todo o rigor ascetico do estatuto, um velho convento de carmelitas descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estas mulheres decrepitas vivem como d'antes na pobreza de que fizeram voto, mantendo a oração, a penitencia e o jejum com a mesma exaltação mystica, com o mesmo fervor catholico dos primeiros annos das suas nupcias com o divino esposo. Trazem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do anno se permittem carne ás suas refeições. Comem juntas no antigo refeitorio, havendo sempre uma que revesadamente se prostra á entrada da sala, segundo o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar e ao sair da mesa. Não têem patrimonio de nenhuma especie, nem outro algum rendimento que não seja o producto dos trabalhos que fazem. Furtadas a toda a convivencia externa, vivem na clausura mais estreita e na miseria extrema. Ninguem no mundo tornou a ver as moradoras d'aquella casa desde que entraram n'ella. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não ha distico nem outro signal que difference as que deixam de existir. A morte para todas ellas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo é sepulchro. A morte é simplesmente a mudança de cubiculo.
Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asylo do resto de seus dias.
O exterior do edificio era mysterioso e lugubre. Cingia-o em toda a sua amplitude uma alta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as casas habitadas pelas freiras ao exame de fóra. Era um predio emparedado. A muralha, que media a altura de quatro andares, era da côr da estamenha, sombria e triste, manchada de grandes nodoas esverdeadas e negras como o capuz de um ermita, uma especie de lençol em que se enrolasse para o enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta facha se recolhia, formando o pateo por onde se entrava para o convento, cuja porta, mordida pelos annos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo atravez dos grossos varões de uma grade de ferro. Pelas juntas desarticuladas das grandes pedras que lageavam o pateo, rompiam moitas de ortigas, com a rudeza de cabellos hirsutos, sahidos pelos rasgões de um barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde seguro por uma corda de esparto pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os andrajos das pobres da visinhança, que vinham laval-os ao pé do poço, e n'esse recinto os deixavam a enxugar juntamente com as enxergas dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do pateo pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma sineta interior. A este signal via-se n'uma abertura da alvenaria rodar no muro um cylindro de madeira, que por um movimento vagaroso mettia para dentro a sua superficie concava e mostrava para fóra o seu interior convexo. Parecia quando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a palpebra, deixando vêr uma orbita sem olho. Este apparelho chamma-se a roda. A condessa pronunciou ahi uma palavra, a que respondeu de dentro uma especie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da porta negra ao fundo do pateo.