Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a noticia que leio na sua folha?

Julgo do meu dever assegurar o seguinte:

Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade d'estas contradicções.

Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.

Saiu talvez ás tres horas da noite.

Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.

As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela madrugada.

—Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.

Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de tempo.