Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um somno pacifico em sua propria casa.
Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente dormir? Tem isto logica?
Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E tudo isto se faz em meia hora! em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?
Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: estava para casar, sem romance, trivialmente.
Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!
Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!
Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.
Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de chá e um livro de historia?
E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!
Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa com um martello, com pregos, e se declara assassino,—isso não o sei explicar.